> > *Eis aí a mais perfeita descrição do “veraneio” Gaúcho.*
> > *
> > Paulo Wainberg*
> >
> > Está chegando o verão e com ele o veraneio, como chamamos aqui no Sul.
> >
> > Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais
> > fantástico litoral do País: de Torres ao Chuí, uma linha reta, sem
> > enseadas, baias, morros, re-entrâncias ou recortes. Nada! Apenas uma
> > linha reta, areia de um lado, o mar do outro.
> >
> > Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes
> > farroupilhas e devia estar em Santa Catarina.
> >
> > Característica nossa, não gostamos de intermediários.
> >
> > Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar
> > e pisar na areia. Nada de vistas deslumbrantes, vegetações
> > verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e outras
> > frescuras cultivadas aí para cima.
> >
> > O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa.
> >
> > É marrom!
> >
> > Cor de barro iodado, é excelente para a saúde e para a pele! E nossas
> > ondas são constantes, nem pequenas nem gigantes, não servem para pegar
> > jacaré ou furar onda.O solo do nosso mar é escorregadio, irregular,
> > rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.
> >
> > Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas,
> > balneários hiper-lotados, supermercados abarrotados, falta de
> > produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, areia fervendo,
> > crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo,
> > porque protetor solar é coisa de fresco e em praia de gaúcho não tem
> > sombra. Nem nos dias de chuva, quase sempre nos fins-de-semana,
> > provocando o alegre, intermitente, reincidente e recorrente coaxar dos
> > sapos e assustadoras revoadas de mariposas.
> >
> > Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste – também chamado
> > de nordestão – e o sul, cuja origem é a Antártida.
> >
> > O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.
> >
> > Chega levantando areia fina que bate em nosso corpo como milhões de
> > mosquitos a nos pinicar. Quem entra no mar, ao sair rapidamente se
> > transforma no – como chamamos com bom-humor – veranista à milanesa. A
> > propósito, provoca um fenômeno único no universo, fazendo com que o
> > oceano se coloque em posição diagonal à areia: você entra na água bem
> > aqui e quando sai, está a quase um quilômetro para sul. Essa distância
> > é variável, relativa ao tempo que você permanecer dentro da água.
> >
> > Outra coisa: nosso mar é pra macho! Água gelada, vai congelando seus
> > pés e termina nos cabelos. Se você prefere sofrer tudo de uma vez,
> > mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua
> > respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do
> > choque térmico.
> >
> > Noventa por cento do nosso veraneio é agraciado pelo nordestão que,
> > entre outras coisas, promove uma atividade esportiva praiana,
> > inusitada e exclusiva do Sul: Caça ao guardassol. Guardassol, você
> > sabe, é o antigo guarda-sol, espécie de guarda-chuva de lona, colorida
> > de amarelo, verde, vermelho, cores de verão, enfim, cujo cabo tem uma
> > ponta que você enterra na areia e depois senta embaixo, em pequenas
> > cadeiras de alumínio que não agüentam seu peso e se enterram na areia.
> >
> > Chega o nordestão e... lá se vai o guardassol, voando alegremente pela
> > orla e você correndo atrás. Ganha quem consegue pegá-lo antes de ele
> > se cravar na perna de alguém ou desmanchar o castelo de areia que, há
> > três horas, você está construindo com seu filho de cinco anos.
> >
> > O vento sul, por sua vez, é menos espalhafatoso. Se você for para a
> > praia de sobretudo, cachecol e meias de lã, mal perceberá que ele está
> > soprando. É o vento ideal para se comprar milho verde e deixar a água
> > fervente escorrer em suas mãos, para aquecê-las.
> >
> > Raramente, mas acontece, somos brindados com o vento leste, aquele que
> > vem diretamente do mar para a terra. Aqui no Sul, chamamos o vento
> > leste de ‘vento cultural’, porque quando ele sopra, apreendemos
> > cientificamente como se sentem os camarões cozinhados ao bafo.
> >
> > E, em todos os veraneios, acontece aquele dia perfeito: nenhum vento,
> > mar tranquilo e transparente, o comentário geral é: “foi um dia de
> > Santa Catarina, de Maceió, de Salvador” e outras bichices. Esse dia
> > perfeito quase sempre acontece no meio da semana, quando quase ninguém
> > está lá para aproveitar. Mas fala-se dele pelo resto do veraneio, pelo
> > resto do ano, até o próximo verão.
> >
> > Morram de inveja, esta é outra das coisas de gaúcho!
> >
> > Atenta a essas questões, nossa industria da construção civil,
> > conhecida mundialmente por suas soluções criativas e inéditas,
> > inventou um sistema maravilhoso que nos permite veranear no litoral a
> > uma distância não inferior a quinhentos metros da areia e, na maioria
> > dos casos, jamais ver o mar: os famosos condomínios fechados.
> >
> > A coisa funciona assim: a construtora adquire uma imensa área de terra
> > (areia), em geral a preço barato porque fica longe do mar, cerca tudo
> > com um muro e, mal começa a primavera, gasta milhares de reais em
> > anúncios na mídia, comunicando que, finalmente agora você tem ao seu
> > dispor o melhor estilo de veranear na praia: longe dela. Oferece
> > terrenos de ponta a ponta, quanto mais longe da praia, mais caro é o
> > terreno. Você vai lá e compra um.
> >
> > Enquanto isso a construtora urbaniza o lugar: faz ruas, obras de
> > saneamento, hidráulica, elétrica, salão de festas comunitário, piscina
> > comunitária com águas térmicas, jardins e até lagos e lagoas
> > artificiais onde coloca peixes para você pescar. Sem falar no ginásio
> > de esportes, quadras de tênis, futebol, futebol-sete, se o lago for
> > grande, uma lancha e um professor para você esquiar na água e todos os
> > demais confortos de um condomínio fechado de Porto Alegre, além de um
> > sistema de segurança quase, repito, quase invulnerável.
> >
> > Feliz proprietário de um terreno, você agora tem que construir sua
> > casa, obedecendo é claro ao plano-diretor do condomínio que abrange
> > desde a altura do imóvel até o seu estilo.
> >
> > O que fazemos nós, gaúchos, diante dessa fabulosa novidade? Aderimos,
> > é claro. Construímos as nossas casas que, de modo algum, podem ser
> > inferiores as dos vizinhos, colocamos piscinas térmicas nos nossos
> > terrenos para não precisar usar a comunitária, mobiliamos e equipamos
> > a casa com o que tem de melhor, sobretudo na questão da tecnologia:
> > internet, TV à cabo, plasma ou LSD, linhas telefônicas, enfim,
> > veraneamos no litoral como se não tivéssemos saído da nossa casa na
> > cidade.
> >
> > Nossos veraneios costumam começar aí pela metade de janeiro e terminar
> > aí pela metade de fevereiro, depende de quando cai o Carnaval. Somos
> > um povo trabalhador, não costumamos ficar parados nas nossas praias.
> > Vamos para lá nas sextas-feiras de tarde e voltamos de lá nos domingos
> > à noite. Quase todos na mesma hora, ida e volta.
> >
> > É assim que, na sexta-feira, pelas quatro ou cinco da tarde, entramos
> > no engarrafamento. Chegamos ao nosso condomínio lá pelas nove ou dez
> > da noite. Usufruímos nosso novo estilo de veranear no sábado – manhã,
> > tarde e noite – e no domingo, quando fechamos a casa.
> >
> > Adoramos o trabalhão que dá para abrir, arrumar e prover a casa na
> > sexta de noite, e o mesmo trabalhão que dá no domingo de noite.
> >
> > E nem vou contar quando, ao chegarmos, a geladeira estragou, o sistema
> > elétrico pifou ou a empregada contratada para o fim-de-semana não veio.
> >
> > Temos, aqui no Sul, uma expressão regional que vou revelar ao resto do
> > mundo: Graças a Deus que terminou esta bosta de veraneio!
ps: recebi por email
ps2:Sempre gostei mais de Florianópolis em SC, mas o autor retratou muito bem o veraneio gaúcho.
domingo, 10 de janeiro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Porto Alegre, a mal entendida
Porto Alegre vive à beira de alguns mal-entendidos.
Para começar, vive à beira de um rio que não é rio. O Guaíba é um estuário, ou como quer que se chame essa espécie de ante-sala onde cinco rios se reúnem para entrar juntos na Lagoa dos Patos. Mas todos o chamam de Rio Guaíba.
A rua principal da cidade não existe. Você rodará toda a cidade à procura da Rua da Praia e não a encontrará. Usando a lógica - o que é sempre arriscado, em Porto Alegre - procurará uma rua que margeia o rio (que não é rio), ou que comece ou termine numa praia. Se dará mal. Não há praias no centro da cidade, e nenhuma rua ao longo do falso rio se chama "da praia". Finalmente, desconfiado de que a rua principal só pode ser aquela que concentra a maior parte do tráfego de pedestres no centro, você consultará a placa e lerá "Rua dos Andradas". Mas ninguém a chama de Rua dos
Andradas, chamam pelo nome antigo, Rua da Praia. Por que da praia? Ninguém sabe. Só se sabe que ela vai da Ponta do Gasômetro, que não é mais Gasômetro, até a Praça Dom Feliciano, que todos chamam Praça de Santa Casa, passando pela Praça da Alfândega, que já foi praça Senador Florêncio, mas voltou a ser Praça da Alfândega porque ficava na frente da Alfândega - que não existe mais.
Confuso, você talvez entre no prédio da prefeitura para pedir satisfações, só para descobrir que entrou no prédio errado. Existe outra prefeitura, a nova, atrás da velha, que por sua vez tem na frente uma praça chamada não Porto Alegre mas Montevidéu.
Na prefeitura certa talvez lhe digam para ir se queixar ao bispo, tendo que, para isto, subir a Rua da Ladeira até a Praça da Matriz, onde fica a Catedral. Desista. Você não encontrará a Rua da Ladeira, que hoje se chama (só ela se chama, porque ninguém mais a chama assim) General Câmara, e a Praça da Matriz na verdade é a Praça Marechal Deodoro, embora poucos porto-alegrenses saibam disto.
A única vantagem de toda esta confusão é que você precisará de muito tempo para ir decifrando Porto Alegre, ao contrário do que acontece em cidades previsíveis e sem graça como Paris, Roma, etc., onde tudo tem o mesmo nome há séculos - e ir degustando-a aos poucos. Acho que não se decepcionará.
Vencidos os primeiros mal-entendidos e localizada, por exemplo, a “Praça da Matriz”, você pode fazer uma visita ao Theatro São Pedro, um dos orgulhos da cidade com seu prédio em estilo barroco português e sua pequena platéia em forma de ferradura. Há quem diga que é o teatro mais bonito do Brasil. Certamente é o mais bem cuidado. Inaugurado em 1858, esteve fechado por uns tempos e foi magnificamente restaurado para sua reinauguração há poucos anos. Da sacada do seu primeiro andar, onde ficam o foyer e o café, você pode olhar a Praça de cima. Se tiver sorte, os jacarandás estarão florindo. Do outro lado da praça estão a Catedral e o palácio do governo estadual, ou Palácio Piratini, esse no estilo neoclássico francês. Duas coisas surpreendem alguns visitantes em Porto Alegre pela quantidade insuspeitada: a arquitetura neoclássica e os jacarandás.
Saindo do Theatro São Pedro você pode aproveitar para dar uma olhada na Biblioteca Pública (outro exemplo do estilo neoclássico), e principalmente uma espiada no seu Salão Mourisco, ricamente decorado. Desça a Rua da Ladeira. Está bem, a General Câmara. Você chegará ao chamado Largo dos Medeiros e a outro mal-entendido municipal. O largo tem este nome extra-oficial em homenagem a um café que tinha ali e não tem mais. Não, não se chamava Café Medeiros, os donos é que se chamavam assim. Não importa, vire à esquerda e siga pela Rua da Praia - dos Andradas! dos Andradas! - passando a Praça da Alfândega, onde todas as primaveras se realiza a famosa Feira do Livro de Porto Alegre.
Depois de uma curta caminhada você chegará ao antigo Hotel Majestic, hoje belissimamente transformado na Casa de Cultura Mario Quintana, com teatros, cinemas e salas para cursos e exposições. Vale a pena entrar para ver o que foi feito do velho hotel e ir até o Café Concerto na sua parte superior, ou então deixar para voltar lá na hora do pôr-do-sol. Um pouco mais adiante na mesma Rua da Praia, à sua esquerda, você verá a igreja Nossa Senhora das Dores, com uma grande escadaria na frente. A fachada e a escadaria são iluminadas à noite, é uma das bonitas visões da cidade.
Volte pela mesma Rua da Praia em direção ao centro. Ao chegar à Avenida Borges de Medeiros, pegue a esquerda e desça até o Mercado Público, perto da prefeitura e da já citada Praça Montevidéu, onde está a graciosa Fonte de Talavera de la Reina, um presente da comunidade espanhola à cidade. Passeie dentro do mercado e veja as suas "bancas" especializadas, como a que vende vários tipos diferentes de erva para o chimarrão. Os morangos com nata batida da Banca 43 são famosos.
O pôr-do-sol não pode ser reivindicado como atração turística de Porto Alegre, já que tecnicamente ele acontece fora dos limites estritos do município, mas saber se colocar para assisti-lo é uma das artes da cidade. O novo Café Concerto, na cúpula do antigo Hotel Majestic, com uma vista desimpedida do “rio” e do poente, já tem seus adeptos, mas o ponto tradicional dos crepusculistas é o mirante do Morro de Santa Teresa. Você precisará de transporte para ir do centro até lá e se for de táxi, para evitar outro mal-entendido, diga ao motorista que quer ir ao “Morro da Televisão”. Do mesmo mirante você terá a melhor vista da cidade, cuja topografia já foi comparada à de São Francisco na Califórnia. E verá, lá embaixo, o imponente estádio do grande Sport Club Internacional.
Outro bom lugar para se olhar a cidade e o pôr-do-sol é o Morro do Turista. Para chegar lá você precisa pedir para ser levado ao Morro da Polícia. É o mesmo morro.
Aos domingos pela manhã, boa parte da população de Porto Alegre vai ao “Brique da Redenção”, assim chamado porque fica no Parque Farroupilha. Calma. O Parque Farroupilha, um dos maiores parques urbanos do mundo, é conhecido pelos porto-alegrenses como Parque da Redenção. Ou, sucintamente, “a Redenção”. “Brique”, na língua gaúcha, é o encurtamento de “briqueabraque” e é uma feira de antigüidades em que tudo, até revista da semana passada, é considerado antigüidade. Mas em meio às porcarias assumidas, há louças e pratarias, livros valiosos, selos e moedas e principalmente muita gente vendendo, comprando ou só passeando.
O parque se chama Farroupilha em homenagem à revolução do mesmo nome que os gaúchos fizeram em 1835 contra o império, proclamando a República Rio-grandense. Mas, embora todo mundo aqui hoje comemore a insurreição, Porto Alegre manteve-se fiel ao governo central e por isto mereceu o título de “leal e valorosa cidade” conferido pelo imperador Pedro II, e que está no seu brasão.
Outro mal-entendido.
Luis Fernando Verissimo.
Para começar, vive à beira de um rio que não é rio. O Guaíba é um estuário, ou como quer que se chame essa espécie de ante-sala onde cinco rios se reúnem para entrar juntos na Lagoa dos Patos. Mas todos o chamam de Rio Guaíba.
A rua principal da cidade não existe. Você rodará toda a cidade à procura da Rua da Praia e não a encontrará. Usando a lógica - o que é sempre arriscado, em Porto Alegre - procurará uma rua que margeia o rio (que não é rio), ou que comece ou termine numa praia. Se dará mal. Não há praias no centro da cidade, e nenhuma rua ao longo do falso rio se chama "da praia". Finalmente, desconfiado de que a rua principal só pode ser aquela que concentra a maior parte do tráfego de pedestres no centro, você consultará a placa e lerá "Rua dos Andradas". Mas ninguém a chama de Rua dos
Andradas, chamam pelo nome antigo, Rua da Praia. Por que da praia? Ninguém sabe. Só se sabe que ela vai da Ponta do Gasômetro, que não é mais Gasômetro, até a Praça Dom Feliciano, que todos chamam Praça de Santa Casa, passando pela Praça da Alfândega, que já foi praça Senador Florêncio, mas voltou a ser Praça da Alfândega porque ficava na frente da Alfândega - que não existe mais.
Confuso, você talvez entre no prédio da prefeitura para pedir satisfações, só para descobrir que entrou no prédio errado. Existe outra prefeitura, a nova, atrás da velha, que por sua vez tem na frente uma praça chamada não Porto Alegre mas Montevidéu.
Na prefeitura certa talvez lhe digam para ir se queixar ao bispo, tendo que, para isto, subir a Rua da Ladeira até a Praça da Matriz, onde fica a Catedral. Desista. Você não encontrará a Rua da Ladeira, que hoje se chama (só ela se chama, porque ninguém mais a chama assim) General Câmara, e a Praça da Matriz na verdade é a Praça Marechal Deodoro, embora poucos porto-alegrenses saibam disto.
A única vantagem de toda esta confusão é que você precisará de muito tempo para ir decifrando Porto Alegre, ao contrário do que acontece em cidades previsíveis e sem graça como Paris, Roma, etc., onde tudo tem o mesmo nome há séculos - e ir degustando-a aos poucos. Acho que não se decepcionará.
Vencidos os primeiros mal-entendidos e localizada, por exemplo, a “Praça da Matriz”, você pode fazer uma visita ao Theatro São Pedro, um dos orgulhos da cidade com seu prédio em estilo barroco português e sua pequena platéia em forma de ferradura. Há quem diga que é o teatro mais bonito do Brasil. Certamente é o mais bem cuidado. Inaugurado em 1858, esteve fechado por uns tempos e foi magnificamente restaurado para sua reinauguração há poucos anos. Da sacada do seu primeiro andar, onde ficam o foyer e o café, você pode olhar a Praça de cima. Se tiver sorte, os jacarandás estarão florindo. Do outro lado da praça estão a Catedral e o palácio do governo estadual, ou Palácio Piratini, esse no estilo neoclássico francês. Duas coisas surpreendem alguns visitantes em Porto Alegre pela quantidade insuspeitada: a arquitetura neoclássica e os jacarandás.
Saindo do Theatro São Pedro você pode aproveitar para dar uma olhada na Biblioteca Pública (outro exemplo do estilo neoclássico), e principalmente uma espiada no seu Salão Mourisco, ricamente decorado. Desça a Rua da Ladeira. Está bem, a General Câmara. Você chegará ao chamado Largo dos Medeiros e a outro mal-entendido municipal. O largo tem este nome extra-oficial em homenagem a um café que tinha ali e não tem mais. Não, não se chamava Café Medeiros, os donos é que se chamavam assim. Não importa, vire à esquerda e siga pela Rua da Praia - dos Andradas! dos Andradas! - passando a Praça da Alfândega, onde todas as primaveras se realiza a famosa Feira do Livro de Porto Alegre.
Depois de uma curta caminhada você chegará ao antigo Hotel Majestic, hoje belissimamente transformado na Casa de Cultura Mario Quintana, com teatros, cinemas e salas para cursos e exposições. Vale a pena entrar para ver o que foi feito do velho hotel e ir até o Café Concerto na sua parte superior, ou então deixar para voltar lá na hora do pôr-do-sol. Um pouco mais adiante na mesma Rua da Praia, à sua esquerda, você verá a igreja Nossa Senhora das Dores, com uma grande escadaria na frente. A fachada e a escadaria são iluminadas à noite, é uma das bonitas visões da cidade.
Volte pela mesma Rua da Praia em direção ao centro. Ao chegar à Avenida Borges de Medeiros, pegue a esquerda e desça até o Mercado Público, perto da prefeitura e da já citada Praça Montevidéu, onde está a graciosa Fonte de Talavera de la Reina, um presente da comunidade espanhola à cidade. Passeie dentro do mercado e veja as suas "bancas" especializadas, como a que vende vários tipos diferentes de erva para o chimarrão. Os morangos com nata batida da Banca 43 são famosos.
O pôr-do-sol não pode ser reivindicado como atração turística de Porto Alegre, já que tecnicamente ele acontece fora dos limites estritos do município, mas saber se colocar para assisti-lo é uma das artes da cidade. O novo Café Concerto, na cúpula do antigo Hotel Majestic, com uma vista desimpedida do “rio” e do poente, já tem seus adeptos, mas o ponto tradicional dos crepusculistas é o mirante do Morro de Santa Teresa. Você precisará de transporte para ir do centro até lá e se for de táxi, para evitar outro mal-entendido, diga ao motorista que quer ir ao “Morro da Televisão”. Do mesmo mirante você terá a melhor vista da cidade, cuja topografia já foi comparada à de São Francisco na Califórnia. E verá, lá embaixo, o imponente estádio do grande Sport Club Internacional.
Outro bom lugar para se olhar a cidade e o pôr-do-sol é o Morro do Turista. Para chegar lá você precisa pedir para ser levado ao Morro da Polícia. É o mesmo morro.
Aos domingos pela manhã, boa parte da população de Porto Alegre vai ao “Brique da Redenção”, assim chamado porque fica no Parque Farroupilha. Calma. O Parque Farroupilha, um dos maiores parques urbanos do mundo, é conhecido pelos porto-alegrenses como Parque da Redenção. Ou, sucintamente, “a Redenção”. “Brique”, na língua gaúcha, é o encurtamento de “briqueabraque” e é uma feira de antigüidades em que tudo, até revista da semana passada, é considerado antigüidade. Mas em meio às porcarias assumidas, há louças e pratarias, livros valiosos, selos e moedas e principalmente muita gente vendendo, comprando ou só passeando.
O parque se chama Farroupilha em homenagem à revolução do mesmo nome que os gaúchos fizeram em 1835 contra o império, proclamando a República Rio-grandense. Mas, embora todo mundo aqui hoje comemore a insurreição, Porto Alegre manteve-se fiel ao governo central e por isto mereceu o título de “leal e valorosa cidade” conferido pelo imperador Pedro II, e que está no seu brasão.
Outro mal-entendido.
Luis Fernando Verissimo.
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